Biblioteca Patativa do Assaré – espaço de transformação social e digital
Palavras-chave:
Formação de Leitores, Biblioteca Pública, Transformação Social, Ttransformação DigitalResumo
A Biblioteca Pública Municipal Patativa do Assaré foi inaugurada no dia 28 de setembro de 2001, com a missão de contribuir para a formação de leitores críticos e sujeitos de sua própria história e de ser instrumento de democratização do acesso ao livro, à leitura e à literatura. Todos os participantes entrevistados, ou seja, 100%, declararam que o contexto sociocultural da cidade mudou a partir da criação da Biblioteca Municipal.
No intuito de fortalecer as ações que desenvolve e arregimentar outras vozes para respaldar o processo de formação de leitores perenes, a BPA encaminhou dois projetos ao MINC através dos quais passou a ser um dos Pontos de Cultura e um dos Cines Mais Cultura espalhados pelo país, que funcionam num prédio ao lado da biblioteca, de domingo a sábado, com atividades culturais diversificadas tais como projeções de filmes e oficinas permanentes de capoeira, karatê, dança, música e teatro.
Ao longo de sua existência, a Biblioteca Patativa do Assaré se destaca como equipamento cultural que estabelece um elo entre os leitores e entre os leitores, auxiliares de biblioteca e professores e desenvolve projetos em formatos de algum modo originais de apresentar os livros à comunidade envolvendo jovens, suas famílias e seu ciclo de amigos. Os mais citados pelos participantes da pesquisa foram: Caravana da Leitura[1], Biblioteca Móvel, Balaio da Literatura Piauiense (projeto através do qual a Biblioteca visitou todas as comunidades do município com parte do seu acervo de livros de autores piauienses), Ler é Preciso e Agente Jovem de Leitura; os cinco Congressos Regionais de Cultura; quatro concursos de poesias; lançamentos de livros de autores piauienses; ciclos de palestras publicação dos livros: Vila Nova - Cidade Poesia (coletânea de textos de autores vila-novenses), Coisa Humana, de João Moura, A Margem Esquerda do Rio e Sorria, enquanto é tempo, de Francisco de Assis Sousa e Diamante Negro, de Alice Júlia; publicação de uma Coletânea de Cordéis com versos e xilogravuras produzidos em oficinas com crianças e adolescentes que puderam experenciar dessa arte secular; exposição de artes plásticas, Expressão do Olhar, com telas do vila-novense Apolônio Leal; exposição fotográfica, O Sertão é um Mundo, com imagens captadas pelo professor Francisco de Assis Sousa; semanas temáticas: da mulher, da consciência negra, do livro infantil e juvenil, do folclore, de escritores relevantes da literatura, do aniversário do Patativa do Assaré, do mês de aniversário da Biblioteca, dentre outros temas, e realiza rotineiramente recitais e rodas literárias no Café com Poesia, contação de histórias, peças teatrais, visitas às escolas etc.
Ao conversarmos sobre as atividades que são desenvolvidas para despertar nos jovens o prazer de ler e o valor da literatura, o auxiliar de biblioteca Coruja Brasil[2], destacou a importância da parceria com as escolas que realizam sistematicamente visitas à biblioteca e participam das atividades previstas no calendário anual de eventos e atividades de formação e enfatizou o quão fundamental é o papel de mediação entre livro e leitor desenvolvido pelos auxiliares da BPA.
Segundo o depoimento dos auxiliares de biblioteca e os documentos que registram o fluxo dos empréstimos realizados pela BPA, os adolescentes que frequentam a biblioteca, sem que haja a mediação direta da escola, têm preferência por alguns gêneros literários, dentre os quais se destaca a procura por contos, crônicas, poesia, romances, cordel e livros da literatura que trazem temáticas voltadas ao universo juvenil.
A concepção de biblioteca expressa nos depoimentos dos participantes revela que os leitores vila-novenses são usuários da biblioteca e a concebem como espaço propício à ampliação dos horizontes de leitura.
As atividades realizadas pela BPA que despertam nos participantes a vontade de ler são: 1º lugar, as programações do aniversário da biblioteca, citadas por 16 entrevistados; 2º lugar, o projeto Biblioteca Móvel, lembrado por 14 participantes; 3º lugar, os Congressos de Cultura, mencionados por 13 pessoas; 4º lugar, as comemorações alusivas ao Dia da Poesia, citadas por 12 entrevistados; 5º lugar, os lançamentos de livros, citados por 07 participantes; e 6º lugar, a chegada de livros novos, mencionados por 03 entrevistados. Dentre as atividades previstas no calendário anual da BPA e que conseguiram catalisar os interesses da comunidade estão as aulas de teatro e os Congressos de Difusão e Produção da Cultura Regional.
Os entrevistados revelam também a concepção que têm sobre o que a BPA representa para o contexto local e regional e o forte vínculo afetivo que existe entre eles e a biblioteca. No processo de elaboração do PMLL, do qual participaram diversos atores sociais, o papel da biblioteca como propagadora de informação e cultura foi realçado, assim como as atividades que realiza e envolvem as diferentes faixas etárias e expressões artístico‐culturais e asseguram a sinergia do livro no contexto vila-novense.
Petit (1999) preconiza que as bibliotecas são essenciais à luta contra o processo de exclusão e renegação e decisivas para que os jovens possam buscar na leitura o entendimento de seu próprio lugar no mundo, de sua história, da capacidade de representar-se, de estabelecer uma identidade com o controle simbólico de si mesmo e que conseguimos encontrar nos depoimentos dos participantes da pesquisa que destacam o papel decisivo que a mediação exerce enquanto elo entre autor, texto literário e leitor. Na entrevista concedida para essa pesquisa, os auxiliares de biblioteca fizeram questão de destacar que o gênero cordel é o que atinge as mais diversas faixas etárias: crianças, adolescentes, adultos e idosos que procuram nos cordéis temas relacionados a personagens tais como Patativa do Assaré, Lampião, Cego Aderaldo, Camões, Seu Lunga, Assis Brasil e Antonio Conselheiro. Essa informação reflete o espaço que o gênero ocupa na biblioteca sem que haja conflito na convivência com as obras canônicas e mostrando a força e a relevância da literatura popular e a sua recepção na comunidade.
A BPA é coordenada por profissionais que concebem a leitura numa perspectiva alinhada ao pensamento de Jauss e de Barthes como algo “muito além de ser hobby, uma coisa prazerosa, embora comece com o gosto pela leitura, sacia a necessidade de (auto) conhecimento, é a melhor maneira de redimensionar a vivência cultural.”, endossa o auxiliar Luz Couto[3] (informação verbal).
A BPA munida de um acervo significativo e de ações de mediação se consolidou como centro catalisador da cultura local e os mediadores que nela trabalham aradam o terreno de forma a provocar reflexões, discussões e rupturas dos horizontes dos leitores vila-novenses.
No contexto da pandemia da covid-19, no qual a prefeitura de Vila Nova do Piauí decreta lockdown, surgem novos desafios: Como assegurar o acesso ao livro? Que ações de formação de leitores realizar? Como garantir que a biblioteca continuasse a cumprir sua função social?
Esses e outros questionamentos inquietaram a equipe gestora da biblioteca que, se apropriando das ferramentas digitais, ousou desenvolver projetos na perspectiva da transmidialidade. Novas parcerias se estabeleceram e ao ser contemplada com o Programa Recode Bibliotecas que estimula a transformação social e digital de comunidades através do protagonismo dos espaços de leitura e oferece suporte técnico para fundamentar ações que buscam estimular em crianças, jovens e adultos algumas das competências para o exercício da cidadania no atual contexto, mantendo a sintonia com as demandas locais e tendo a inovação e a tecnologia como aliadas.
Norteadas pelos estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) as ações executadas perpassam aspectos concernentes à criatividade, colaboração, comunicação e resolução de desafios.
Apesar das adversidades inerentes a um contexto de crise sanitária, econômica e política, a Biblioteca criou o Clube de Leitura Cidade Poesia, que realizava encontros virtuais para discussão de livros previamente sugeridos e lidos pelos participantes; fruto da parceria com a Recode, foi contemplada pela Toca Livros e passou a ter um acervo digital de 19 mil títulos; realizou o IV Concurso de Poesia e com os trabalhos inscritos lançou o livro Vila Nova – Cidade Poesia (volume 2); desenvolveu no formato virtual: o Ciclo de Palestras sobre História, Cultura Negra e Identidade: Legado Africano no Piauí, aniversário da biblioteca, Festival de Cultura (on-line) – Fazendo Arte da Cidade Poesia.
Por compreender o seu papel de mediadora de leitura literária, a BPA se percebe enquanto parte de um circuito que inclui outros atores sociais, dentre os quais as famílias e os professores, que dispõem dos mecanismos necessários para fortalecer o elo entre autor, leitor e texto literário.
Referências
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. 4. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: Teoria, Análise, Didática. São Paulo: Moderna, 2000.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 30 ed. São Paulo: Cortez, 1995.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2007.
LAKATOS, Maria Eva. MARCONI, Maria de Andrade. Metodologia do trabalho científico. 4 ed. São Paulo: Atlas, 1992.
MAGNANI, M. Leitura, literatura e escola: sobre a formação do gosto. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
PETIT, Michèle. Os jovens e a leitura – uma nova perspectiva. São Paulo: Ed. 34, 2008.